quinta-feira, 24 de maio de 2012

EFEITO COLATERAL




Às vezes o homem encontra seu destino,
Nos caminhos trilhados para dele fugir.
E as ações deste coração clandestino,
Nem sempre a redenção poderá o anuir.

Escolhas traçam o rumo,
Limiar da vida em resumo,
Sinais da escalada ao sumo,
Ou balança perdendo o prumo.

A vida é sempre igual,
Em qualquer época deste cerimonial,
Padecemos o efeito colateral,
Por vezes injusto e imoral.

Às vezes, somos meros figurantes,
Desta sociedade ilusória,
Que aglutina e escraviza,
Que a alma assola,
Que cria estereótipos,
Instiga preconceitos,
Impõe seus preceitos,
Concebem fantasmas e heróis
Dentro de nossa história,
Massificando nossa memória,
Numa opinião transitória,
Tratando-nos quão marionetes,
Filhos de pandora,
Marcados por anilhas,
Sem livre arbítrio pra escolhas,
Somos tolhidos em bolhas.

Caso do acaso, ou por puro descaso,
Munido de personalidade surreal,
O ser humano é imprevisível,
Supor o desfechar de situações, é impossível,
Intenções e ações são difíceis de adivinhar,
E não existe influência astral,
Que impeça num segundo fatal,
Tudo se transformar. 

Susely




terça-feira, 22 de maio de 2012

PRISIONEIROS




Tua alma expõe, destemida Diana,
Veemente apaixonada, sutilmente atrevida.
Sabes que à aurora estará de partida,
Pois és da noite cativa soberana.

De prata vestida, esplendorosa, insinuante,
Resplandece tua essência, se mostra nua.
Em breves contemplar, desejas ser tua,
Mas solitária, vagas errante.

 És tu, fogo de labaredas ensolarado,
Dela, és o desejo, és o pecado,
Que a rejeitas contrariado.

Sortilégio, os faz prisioneiros,
Dia e noite, nesse céu, cativeiros.
Penosa saga de amantes forasteiros.

Susely


CORUJA-DAS-TORRES





Ouço suave melodia,
Sinto na leve brisa, uma alquimia.
Nos cabelos uma dança, uma magia,
Sensação que me contagia.

Dançam as flores, folhas e árvores,
Exalando seus odores,
Jardins em movimento, brincando com as cores,
Borboletas a bailar, junto dos beija-flores.

Saio do mundo, viajo no tempo,
Não há emoção, não há pensamento,
Só um grandioso inebriamento.
É como se me transformasse neste momento.

Num voo planado, sou coruja-das-torres,
Que observa todos os lugares,
Delicadamente bailando pelos ares.

A vida, a beleza, a riqueza da paisagem,
Sinto-me parte desta amostragem,
Desta vida que chamam de “selvagem”.

Não desejo mais voltar,
Pra esta vida, pra este lugar,
Pra esta gente que não sabe amar.

Mas sei que aqui devo ficar,
Pacientemente aprender, amar e lutar,
E quem sabe, num dia qualquer, não mais regressar.

Susely


sábado, 19 de maio de 2012

O AMOR...




Adentra meu corpo em ondas fumegantes,
Causa-me insanos espasmos , envolventes,
Desconchavo de sons e cores incoerentes,
Engana os sentidos, deixa-os dormentes,
Encoleriza os dias que não estas presente.

Esta chama que abrasa meu peito,
Atordoa-me em insônias, desfazendo meu leito,
Êxtase em dor, num sabor  perfeito,
Aromas que entorpecem e aquecem o sujeito,
Insolente loucura, que só o amor cura direito.

Impetuoso clamor  em erupção,
Insensatez, miscelâneas encarecidas de paixão,
Remindo brutalmente ao inevitável tesão...
Fogosa querência, de corpos, em coesão,
Ordinário desejo, de corações, em adesão.

Remete-me ao delírio sagaz desta fome voraz.
Açula-me sensações... de resistir sou incapaz...
Ludibria-me em teus encantos, alquimia eficaz,
Armadilhas da sedução, irresistível, sagaz
Ébrias fantasias, capricho que só o amor satisfaz.

Susely


quinta-feira, 17 de maio de 2012

CICLOS




De círculos e ciclos,
A vida repica,
Como os sinos,
Os desatinos,
Penetra os miolos,
E redunda nos olhos...

Lembro-me daquela menina,
De suas esperanças,
Dos sonhos de criança,
Dos preconceitos que sofria,
Da falta de amizades que sentia,
Da solidão...

Mas a menina cresceu,
Encontrou-se com a ilusão,
Depois o amor e então...
De lagarta, borboleta virou,
Nova vida experimentou,
Dores, vivenciou,
E o amor por ela passou...

Das flores que beijou,
Inusitados sabores sugou,
Alguns a fizeram cambalear,
Quase findar...
Outros, a fizeram borboletear,
E novos rumos buscar...

Mas a existência nunca para,
Continua seus ciclos,
Em círculos,
No picadeiro do circo.

Ciclos que se vão,
Que não passarão,
Que trazem escravidão,
Que deixam insatisfação,
Ou trazem redenção.

E os círculos nos ciclos,
A vida continua a repicar,
Jamais quer parar.
Talvez só irá terminar,
Quando o aprender da menina,
Mudar a estação,
Pra outra dimensão.

Susely



terça-feira, 15 de maio de 2012

CHUVA




Céu nublado, negro, de clarões rajado,
Olho pela vidraça, agora respingada,
A chuva que cai barulhenta e pesada,
Faz meu coração bater mais descompassado.

Seu farfalhar intenso a abafar,
Da alma, igual chuva a desabar.
Flui tão silenciosa e calma,
Que suavemente o coração assola.

Enquanto o céu deságua cantando,
A natureza festeja ao vento,
Árvores dançando, flores se curvando,
Igual a tantos, sem notar meu lamento.

Caminhando em sua direção,
Sinto-a tão fria, tão gelada,
Por ela, vagarosamente sou abraçada,
Sinto-me envolvida, acarinhada.

Entrego-me neste encanto,
Caio e não me levanto.
Olhos fechados, alma escancarada,
Deixo toda tristeza ser lavada.

Das profundezas da alma, um grito,
Tua graça e benção eu sinto.
Neste instante de impar beleza,
Meu corpo se conecta a natureza.

Apenas um somos agora,
Inexistindo tempo e espaço,
Fração de segundo, em que a vida evapora,
E retorna, em novo compasso.

Susely

FACA DE DOIS GUMES




Amar e ser amado, muito complicado!
É algo que se perde entre o certo e o errado,
No limite do poder e do fazer,
Disperso na razão do querer e do ser.

Em segundos, fomenta sentimentos diferentes,
diversificando variedades e intensidades,
Deslizando do frustrado ao afortunado,
Resvalando do aconchegado ao machucado.

Como pode ser algo tão inexplicável,
O que nos coloca em situações inusitadas,
Que às vezes é felicidade imensurável,
Em outras, revela angústias na face brotadas?

Quando se ama, a vida muda o panorama,
O coração suscitado em chamas
Que pelos poros transborda e derrama,
E o doce odor do amor se proclama.

Faca de dois gumes,
Inevitável queixume do ciúmes,
Orgulho que riscos assume,
Almejando do amor o cume.

Mas como não se enamorar?
Como não querer ser amado ou amar?
Como não deixar o coração experimentar,
Aquilo que é fecundo a lhe forjar?

Susely



quinta-feira, 10 de maio de 2012

PANACEIA




Às vezes caminho em chão de flores,
Sentindo a maciez e seus odores.
Às vezes piso em espinhos e sinto dores,
Sem vê-los, acautela-se o coração em temores.

Às vezes caminho sobre areia,
Que desequilibra e cambaleia,
Fazendo-me devagar caminhar, procurando uma esteia,
Que me auxilie neste solo, que desnorteia.

Caminho ao vento,
Na chuva, ao relento,
Em silêncio, quase sem movimento,
Ofegante, de vida sedento.

Poeira se levanta,
A visão tampa,
O pensamento atordoa e espanta,
Sobejando um nó na garganta.

Folhas de outono bailam sobre o véu,
Ofuscada percepção, não se nota o céu.
Roda-moinho de vida ao léu,
Herdeiros afigurados de réu.

No esforço de cada passo,
Às vezes com ânimo escasso,
O deslocar-se é fixado num mesmo compasso,
Que num lapso, pode não se findar em fracasso.

Assim, queda-me a armadura,
Esta chancelada moldura,
Imparcial a toda criatura,
Que cava-nos idêntica sepultura.

Este júbilo renova-me a trilha,
Extirpa-se o véu  e nova estrela brilha...
Energia que a existência inspira...
É quando emoção sobrepõe a razão, e então, mágica a vida vira...

Contagiante panaceia, faz o espírito boiar nas ondas do ar,
Principiante fugaz em intentos alçar.
Às vezes é real este despertar...
Às vezes é apenas um singelo e disperso salutar.


Susely



terça-feira, 8 de maio de 2012

O BEM E O MAL



Sou fruto estragado, adubando a terra.
O grito engasgado, dos que vivem em guerra.
A pá que um corpo enterra.
A dor que no peito impera.

Sou húmus que faz germinar a semente.
Sou sombra neste chão quente.
O lixo acumulado na enchente.
Sou o pecado na mente, em brasa ardente.

Sou o leito seco do rio.
A escuridão do beco sombrio.
A serpente do pensamento vazio.
O veneno da língua no cio.

Sou o erro repetido.
O ódio no  peito escondido.
A perspicácia do bandido.
O ego revoltado e agredido.

Sou a sedução e o mistério.
Sou quem te domina e tudo quero.
Sou teu governante e impero,
Sem precisar jamais  de critério.

Sou o calor e o frio.
Na espinha, o arrepio.
O medo e a coragem.
Estou sempre em vantagem.

Sou a alegria e a tristeza.
A pobreza e a nobreza.
A doença e  a saúde.
O barulho e a quietude.

As divergências das situações.
As dúvidas nos corações.
O peso de tuas aflições.
As respostas e as confirmações.

Faço parte de você, posso ser você.
Sou a sombra que te espreita e te segue
E se deixar que eu te carregue,
Ficará à minha mercê.

Sou parte do bem...
Sou parte do mal...
Alimente o que convém,
O que te seja ideal.

Por que sou real, sou virtual,
A nada sou igual.
Sou parte razão, parte sentimental,
Em tudo, sou o diferencial.

Que te pune, que te assume,
Que te une ou desune,
Que te leva ao cume do ciúme,
Ou ao mais puro lume.

Susely



sexta-feira, 4 de maio de 2012

ROSA DOS VENTOS





No romper da aurora fria,
Gradualmente o cálice se enche e se esvazia,
Embriagado sangue, alucina,
Perdendo-se do que se aproxima.

Ignorada semente germina,
Nem sempre o que se começa, termina.
Rochas se movem, descem a colina,
Enterram os pecados da doce menina.

Face à luz, ofusca visão,
Do que não se vê, não há medo ou confusão,
Mas, à alma traz gemido e lamentação,
Admirável frágil vida em conjunção.

Dissipa-se a inocência de criança,
Ressurge na essência brotos de esperança,
Rosa dos ventos sempre em mudança,
Delineado cíclicos de nossa herança.

Conjecturam-se renovados axiomas, dia após dia,
Fazendo o saber se calar a cada alvorada.
Na existência, a querência e a ousadia,
O ser e se conhecer, alterando a jornada.

Energia propulsora aflorada,
Busca-se o que nem sempre esta manifestada,
Ciclos que em ciclos fica chancelada,
No espírito desta nossa escalada.

Susely