Quando notei a escuridão, já
era alta madrugada. Meu raciocínio ainda era meio sonolento. Fazia um silêncio
ensurdecedor e meus olhos quase nada podiam ver.
Numa
velha e florida poltrona adormeci e apesar de me sentir leve como se flutuasse,
quando acordei, não consegui dela me levantar.
As
cortinas da sala esvoaçaram com o gélido vento que adentrava as janelas ainda
abertas, avisando que uma forte chuva logo cairia. De repente o céu foi cortado
por um estrondoso clarão, um calafrio me percorreu a espinha e meu corpo se
arrepiou.
A
casa que outrora fora doce conhecida, neste instante, pelo raio iluminada,
pareceu-me solitária e vazia.
Como poderia estar tão
diferente meu recanto abençoado?
Um forte barulho de chuva no
telhado fez meu pensamento se perder e já não conseguia em nada me concentrar.
Em flashes, algumas lembranças começaram me atormentar, involuntariamente iam
surgindo e não consegui controlar...
O que estava acontecendo
comigo?
Novamente tentei levantar e
agora em pé, via meu corpo sentado, foi neste momento que perdi a noção do que
sentia...
Incrédula, olhando meu corpo
que jazia, tentei chorar, tentei gritar, tentei fugir, mas estava paralisada,
petrificada.
A vida passou...
Será que num segundo?
É assim que se finda o
mundo? O meu mundo?
Durante quanto tempo não
sei, continuei a observar:
A menina...
A casa...
A escuridão...
As sombras...
Nada fazia sentido...
Tudo guardado, tudo perdido,
tudo acabado, tudo esquecido...
Voltei os olhos para o
invólucro pálido, que parecia adormecido e as lágrimas rolaram pela minha face.
Ah! Se ela soubesse que
assim terminaria, teria dado menos importância às rotineiras preocupações,
teria aberto seu coração para as belezas e os amores da vida.
Quanta tolice...
Quanta banalidade...
E agora é tão tarde!
De repente me senti livre,
leve, era como se uma onda de paz me envolvesse e nada mais afligisse meu
coração.
Será que coração eu ainda
tinha?
A cena foi se desbotando,
amarelando, como que sendo esquecida...
Nada restou para esta alma que
quase sem perceber voou com calma para a luz que do céu aflorava.
Daquela mulher, o que
sobrou?
Talvez apenas lembranças no
coração de quem a amou.
Será que alguém a amou?
Susely

Um comentário:
Sair do corpo é muito bom...quando se tem para onde ir...
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